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A Eletroconvulsoterapia (ECT) não é um bicho de sete cabeças

Prof. Dr. Sérgio Tamai
Departamento de Saúde Mental da Irmandade da Santa de Misericórdia de São Paulo
Centro de Atenção Integrada à Saúde Mental.
Associado à Associação Brasileira de Psiquiatria – ABP Brasil
Departamento de Saúde Mental da Federação das Santas Casas de Misericórdia, Hospitais e Entidades Filantrópicas do Estado de São Paulo - FESEHF.

Carolina dos Santos Fagnani de Paiva
Jornalista
Associação Brasileira de Psiquiatria
Agosto/2004

A Eletroconvulsoterapia (ECT) é o procedimento médico que mais evoca mitos e preconceitos tanto na população leiga quanto entre os profissionais da saúde.

Freqüentemente associado à tortura e as imagens impressionantes das crises convulsivas induzidas, o antigo e temido “eletrochoque” emergiu das trevas e tem se firmado mais do nunca como importante recurso no tratamento de transtornos afetivos, principalmente em depressões graves(1). Em alguns casos pode salvar a vida de uma pessoa (caso de depressão que não responde a antidepressivo associado a ideação suicida ou com risco de vida por recusar alimentação, por exemplo). Há evidências de boa resposta nos casos de catatonia e alguns casos de esquizofrenia(2). Na verdade, a eficácia da eletroconvulsoterapia na remissão da depressão grave é de 80% a 90% contra 60% a 70% da farmacoterapia(3).

Dessa forma, a eletroconvulsoterapia é considerada o tratamento de primeira escolha nos seguintes casos(4):

· Quando necessária uma resposta terapêutica mais rápida do que os tratamentos convencionais (pacientes com risco elevado para suicídio, catatonia).

· Nos casos em que a farmacoterapia não pode ser tolerada pelo paciente.

· Gravidez onde é elevado o risco malformação fetal induzida pela farmacoterapia.

· Quando não há resposta terapêutica aos tratamentos convencionais.

As condições em que o procedimento é realizado não lembram em nada o mito da “cadeira elétrica”, em que o paciente é “torturado”. A eletroconvulsoterapia é hoje um procedimento humano, seguro e tecnicamente bem pesquisado, de eficácia comprovada, e que foi regulamentado pelo Conselho Federal de Medicina através da resolução nº 1640 de 2002(5). Esta resolução estabelece pontos importantes para garantir o respeito aos direitos do paciente:

· Consentimento informado e por escrito do paciente ou responsável antes do início do tratamento.

· Avaliação do estado clínico, em especial as condições cardiovasculares, respiratórias, neurológicas, osteoarticulares e odontológicas.

· A obrigatoriedade da anestesia durante o procedimento.

· Ambiente em que se possa garantir a privacidade do paciente.

O Procedimento

Com o paciente anestesiado (é induzida uma anestesia geral com uma medicação que promove um relaxamento muscular) é aplicada uma corrente elétrica no cérebro. Esta corrente elétrica desencadeia uma convulsão (daí o nome eletroconvulsoterapia). Esta convulsão é muito diferente da crise epiléptica. Por causa do relaxante muscular, não se verificam os abalos musculares. Durante o procedimento é realizado um eletroencefalograma de controle.

Simultaneamente a aplicação, é feito um monitoramento do funcionamento do coração, através de eletrocardiograma, da oxigenação do sangue, além de um controle da pressão arterial.

Atualmente os aparelhos de eletroconvulsoterapia realizam automaticamente cálculos que possibilitam que se dê a menor carga de energia adequada para cada paciente(6).

Efeitos colaterais

Os principais efeitos colaterais da eletroconvulsoterapia com as técnicas atuais são alterações transitórias e reversíveis na memória (7,8).

Conclusão

A eletroconvulsoterapia evoluiu consideravelmente desde seu surgimento nos anos 1930 e, ao invés de descartá-la como método primitivo e ultrapassado de tratamento, os estudos acumulados em todos estes anos vem refinando sua técnica e reafirmando sua eficácia em casos selecionados, onde pode constituir a única possibilidade terapêutica.

Referências bibliográficas:

1- Weiner RD, Coffey CE. Indications for use of electroconvulsive therapy. In: Frances AJ, Hales RE, Eds. Review of Psychiatry, Vol. 7. Washington, DC, American Psychiatric Press, 1988. p.458-81.

2- Fink M. Is catatonia a primary indication for ECT?. Convulsive Ther 1990; 6: 1-4

3- American Psychiatric Association. Practice guideline for major depressive disorder in adults. Am J Psychiatry 1993 ;150: 1-26.

4- Potter WZ, Rudorfer MV. Electroconvulsive therapy – a modern medical procedure. N Engl J Med 1993; 328: 882-883.

5- República Federativa do Brasil, Conselho Federal de Medicina. Resolução n° 1640 de 10 de julho de 2002. DOU de 09/08/2002, seção 1.

6- Perizzolo J, Berlim MT, Szobot CM, Silva Lima AFB, Schestatsky S, Fleck MPA. Aspectos da prática da eletroconvulsoterapia: uma revisão sistemática. R Psiquiatr RS, 2003; 25 (2):327-34.

7- Crowe RR, Electroconvulsive therapy- a current perspective. N Engl J Med 1984; 311:163-67.

8- Weeks D, Freeman CP, Kendell RE. ECT. III. Endure cognitive deficits? Br J Psychiatry 1980; 137: 26-37.

 

 
 

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